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sábado, 21 de janeiro de 2012

O DESEJO DE, OU DO ANALISTA?




Por Sérgio Scotti

         Defrontados com a questão do desejo do analista, deparamo-nos com o desejo que herdamos de Freud o qual segundo Lacan, nunca foi analisado.
         "O verdadeiro é talvez apenas uma coisa, é o desejo do próprio Freud, isto é, o fato de que algo, em Freud, não foi jamais analisado." (Lacan, 1990, p. 19)
         Mas como dar conta de um desejo que morreu com o pai da psicanálise?
         Na verdade, o desejo de Freud embora não analisado, permanece em cada analista que se propõe a continuar o exercício de um saber que ele transmitiu. Sim, pois a rigor é somente o saber que se pode transmitir, ficando o desejo a cargo de cada analista. Então, o desejo de Freud se liga ao desejo de cada analista quando este, sustentado por um saber inaugurado por aquele que nos deu as linhas mestras da psicanálise, procura ocupar o lugar daquele que perante o analisante é suposto saber.
         No entanto o que é que faz, para cada analista, querer sustentar um lugar que paradoxalmente, ao se ater à regra fundamental propõe na verdade, como assinala Lacan, o analisante como suposto saber?
         "Eu insisti freqüentemente nisto, que nós somos supostos saber não grandes coisas. O que a análise instaura é justamente o contrário. O analista diz àquele que está para começar - Vamos lá, diga qualquer coisa, vai ser maravilhoso. É ele que o analista institui como sujeito suposto saber." (Lacan, 1992, p. 50).
         Se há um saber do analista, é um savoir-faire que não dá conta do saber do analisante a respeito de seu próprio desejo. Portanto, poderíamos dizer que o desejo de analista que sustenta o seu lugar paradoxal, é o desejo do desejo do analisante?
         Fiquemos provisoriamente com esta questão para perguntarmo-nos sobre o lugar que segundo Lacan, é o de um objeto; o objeto a.
         "Vejamos o que aqui está em jogo no discurso do analista. Ele, o analista, é que é o mestre. Sob que forma? Isto é o que terei que reservar para os nossos próximos encontros. Por que sob a forma de a?" (Lacan, 1992, p. 33).
         Temos então que o lugar de objeto a, ocupado pelo analista, é sustentado por um saber fazer e por um desejo que tem como ponto de mira o desejo do analisante.
         A princípio isto está de acordo com a fórmula de Lacan que nos diz:
"O desejo do homem é o desejo do Outro" (Lacan, 1990, p. 223).. Mas, isto ainda não nos esclarece a natureza de um desejo que se manifesta justamente no lugar do analista e não num outro qualquer. E isto nos leva a pensar que o lugar do analista não é para qualquer um mas, para um qualquer que queira ocupar o lugar de objeto na análise.
         Talvez possamos entender então o desejo do analista pelo lugar que ele visa ocupar. O lugar de objeto, mesmo que seja o de causa do desejo, pois é assim que Lacan define o analista, como objeto a, "Ele, o analista, se faz de causa do desejo do analisante." (Lacan, 1992, p. 36), não deixa de ser também o de um resto. Um resto que o analisante deverá deixar cair ao final de análise. Então, por quê o analista desejaria ter como destino na análise, o de um resto que aparentemente não alimenta em nada seu narcisismo? Pois, para destituir-se do lugar de sujeito e, mesmo como objeto, ser reduzido a um resto, só mesmo sendo um santo, o que o analista não é, como diz Lacan ou, seguindo uma homofonia possível em francês, ser destinado à poubelle (lixo), aproxima-se da finalidade plus belle (a mais bela), ou ainda, no nosso idioma, o jogo de palavras possível de que o lixo é um luxo.
         Isso não está em desacordo com o que dissemos antes sobre o desejo do analista enquanto desejo do Outro, coisa que compartilha com o desejo de qualquer um, mas o que faz o desejo do analista um desejo que não é para qualquer um, é que este desejo se corporifica no lugar do objeto a não simplesmente enquanto causa do desejo, coisa que ele poderia compartilhar com a histérica, mas enquanto resto, que é o que visa a análise como nos ensina Lacan quando nos diz que o que se espera do analista é que ele analise, "O que define o analista? Já o disse, desde sempre - simplesmente ninguém jamais compreendeu nada, e além disso, naturalmente, a culpa não é minha -, análise, eis o que se espera de um psicanalista." (Lacan, 1992, p. 50). É que o desejo do analisante só poderá advir onde o lugar do sujeito analista estiver vazio para que lá reste o seu, o do sujeito analisante.
         É portanto um lugar, o que Freud deixou vago para ser ocupado por cada analista através do narcisismo das pequenas diferenças, "Na medida em que todo analista repete o ato de Freud sem qualquer outra garantia de ser analista salvo pela transmissão de seu desejo, pode-se dizer que há somente um - o de Freud. É preciso ainda observar que tal desejo se transmite de modo histérico, o que não exclui o narcisismo das pequenas diferenças." (Cottet, 1990, p. 184), narcisismo que terá seu espaço num lugar o qual, paradoxalmente, para além de todo narcisismo, é o de um resto, o de um vazio que antes ocupado pelo Outro, pelo suposto saber, ou pela causa do desejo, passa a ser ocupado pelo desejo do analisante.
         E o mecanismo que dará testemunho desse desejo de analista o qual cada analista, com seu narcisismo próprio, carregará através de seu desejo particular para o lugar de objeto a, é o mecanismo do passe. Passe proposto por Lacan para dar conta de um lugar criado por Freud que por assim dizer, se tornou a matriz de um desejo, um desejo a ser construído por cada um em sua própria análise. Pois se há uma condição para se ocupar o lugar de analista, é a da própria análise de cada um que poderá resultar ou não, no desejo de-ser analista que guardadas as pequenas diferenças reservadas ao narcisismo de cada um, guardará a comunidade com o desejo de cada analista de ocupar o lugar deixado por Freud, o lugar identificado por Lacan, como o do objeto a, o resto, o lixo ou o luxo de ser o que sobra daquilo que na sua origem, deu lugar à transferência que se resolve quando o desejo do analisante, deixando de se repetir no gozo do sintoma, passa a ser desejo de outra coisa.
         Mas do seu próprio desejo só pode dizer cada um. Então, como poderíamos estar a falar de um desejo de analista como se fosse algo geral, de todo analista, ou de todo aquele que chega ao final de sua análise?
         Na verdade, não se pode definir o desejo de analista somente pelo fato de que ele não seja algo geral a todos os analistas, já que o desejo de analista não se confunde com o desejo de cada analista em particular mas, tem a ver sim, como vimos, com um lugar. Ele também é indefinível porque este lugar é o lugar da falta. Falta que estando na ordem do real, é indefinível. Portanto, quanto ao desejo de analista, o máximo que podemos fazer é cercá-lo com significantes que nunca poderão atingir seu centro pois, o desejo de analista por sua natureza, é descentrado em relação a si mesmo, já que se refere a um lugar que não é o de um sujeito mas, sim, o de um objeto. Contudo, permanece a questão: o que convoca um sujeito a querer ocupar o lugar de um objeto como é o que caracteriza o lugar do analista?
         Aqui temos mesmo, duas ordens de coisas. O que convoca um sujeito a ocupar o lugar de analista é a sua transferência com a própria psicanálise ou, em última instância, sua transferência com o significante garantia da verdade que foi Freud e que tem nos seus continuadores, os analistas, o suporte de uma transferência com a verdade.
         O desejo de analista se articula com esta transferência na medida em que as duas coisas se engancham na verdade que sustenta a psicanálise. Verdade que é a do desejo inconsciente o qual só poderá surgir no lugar deixado vago pelo sujeito analista que, de início, enquanto objeto causa de desejo, passa, ao final, a ocupar o lugar de objeto, como resto.
         No entanto resta também, ainda, uma outra questão. Quando o analista em seu ato, enquanto tal, ocupa seu lugar e analisa, este seu ato está em contradição com seu desejo já que o ato exige dele que se coloque como sujeito para o outro. É assim que compreendemos Lacan, quando este diz que o analista tem horror ao seu ato, "Deve-se afirmar que o psicanalista rejeita ocupar esse lugar, ao qual seu ato, contudo, irá fixá-lo. É neste contexto que se situará a seguinte afirmação de Lacan: 'O psicanalista tem horror ao seu ato.' " (Cottet, 1990, p. 185).
         Contudo, o que preserva o desejo do analista em seu ato, é que este dirigi-se não à demanda do analisante frustando-a ou satisfazendo-a mas sim, aos significantes que se revelam no próprio discurso do analisante os quais, mais do que decifrações, se propõem como novos enigmas no lugar dos sintomas, relançando assim o sujeito na direção da sua verdade e preservando, ao mesmo tempo, o lugar da falta.  
         A verdade do desejo do analisante que é suposta pelo analista, decorre dele mesmo já ter vivido, em sua análise, sua própria verdade de seu desejo, o que o coloca diante do desejo de analista que poderá se traduzir ou não em ocupar o lugar de analista, caso haja, ou não, uma transferência, nesse sentido, com a psicanálise representada pela figura do analista.
         De qualquer forma, embora o desejo de analista não implique uma paixão pela verdade como diz Serge Cottet, "Apropriado para pôr de novo em seu lugar as aspirações idealistas que fariam preceder o ato por um apelo irresistível da verdade..." (Cottet, 1990, p. 185), pois que não se trata de uma identificação narcísica à verdade, o analista, na verdade, foi atravessado por ela e, neste atravessamento, seu desejo particular se encontrou, via transferência, com o desejo de analista que não é o desejo de qualquer um em particular mas, o desejo que se agarra a um lugar criado pelo desejo de Freud.
         De certa forma, Freud é o analista de todos nós na medida em que cada analista que ocupa o lugar deixado vago por ele, carrega este desejo de um desejo na forma do lugar que se deixa vago ao surgimento do sujeito do inconsciente. Sujeito que já gritava nas fogueiras da inquisição e nas salas da Salpetriére, mas que só foi ouvido enquanto tal no consultório de Viena.
         E este sujeito que vem ganhando cada vez mais espaço no mundo, paradoxalmente, na psicanálise do além mar, como dizia Lacan, buscou-se amordaçar novamente através da ideologia do eu forte. E mais paradoxalmente ainda, dentro da própria escola que Lacan idealizou, o lugar desse sujeito corre perigo de se estreitar novamente.
         O sujeito que tendo sido atravessado pela sua própria verdade, venha a estabelecer uma transferência com a psicanálise na forma do desejo de ocupar o lugar de analista terá, na experiência do passe, "...é no exterior da cura analítica que se encontrará, ou não, a lógica que a preside. Esse dispositivo é o passe." (Cottet, 1990, p. 185), a oportunidade de testemunhar aos seus pares o seu próprio desejo de analista. Mas essa não é a sua garantia, ela está dada por um lugar que desde Freud está vago e que deve ser ocupado antes de tudo pelo desejo do próprio analista e, também, por aqueles que simbolicamente, como garantia da verdade na instituição, deveriam zelar pelo lugar da falta de um saber estabelecido sobre a mesma, ao invés de se dizerem sabedores de uma verdade que só pode ser um semi-dizer como dizia Lacan.
         O que fazer diante desta dura realidade? A realidade que se impõe quando uma instituição não garante a si mesma como lugar a partir do qual a verdade do analista possa ser ouvida, pois que nela institui-se a cassação da palavra, único lugar em que realmente a verdade pode dizer-se, mesmo que seja a meias palavras.
         Diante de tudo isso, parafraseando Freud, resta-nos recordar, ou repetir, ou ainda, elaborar.
         Recordar que em função de uma hierarquia enrijecida e de critérios mais político/segregatórios do que clínicos, os quais formavam verdadeiras “castas” dentro da instituição psicanalítica, Lacan propõe uma nova escola que tenha como base do laço de trabalho, os mesmos fundamentos que garantem o surgimento da verdade na análise e que se traduzem pelo cartel, pela permutação de funções hierárquicas e pelo passe.
         Ou repetir através de uma distorção da verdade, dentro dos próprios mecanismos sugeridos por Lacan, a ideologia do desconhecimento veiculada pela identificação ao analista na forma do Único que saberia dizer sobre uma verdade a qual não pode ser propriedade de qualquer um, pois que ela corre solta no desfile dos significantes, emergindo de quando em vez em nossas vãs tentativas de dar conta de um real que em última instância, é o real de uma falta-em-ser que só pode ser tocado em uma análise, quando este lugar da falta é preservado pelo desejo do analista decorrente de uma transferência com a psicanálise via uma escola que, ela também, sabendo preservar tal lugar, permita assim, a elaboração da transferência, fazendo surgir o desejo a partir da constatação de que o Outro não existe, e de que o único responsável por seu próprio desejo é o sujeito mesmo.
         Ao final de um cartel sobre o desejo do analista, que ainda é, ao que parece, um dos poucos lugares que ainda restam do que originalmente Lacan propôs como base da psicanálise em intensão, promovendo operadores que em extensão, espalham a psicanálise no mundo, carrego ainda comigo, a transferência com a psicanálise inaugurada por Freud e continuada por Lacan a qual, tenho a esperança, encontrarei corporificada em algum lugar que não seja somente em mim mesmo mas, nalgum laço social que tenha como ponto de identificação, o lugar deixado por Freud e Lacan que não é, a rigor, de ninguém.    

           
          

Bibliografia:
COTTET, S. Freud e o desejo do psicanalista, R. de Janeiro, J. Zahar Ed., 1989.
FREUD, S. Recuerdo, repetición y elaboración, in Obras completas, Madrid, trad. Luiz Lopez Ballesteros y de Torres, Biblioteca Nueva, 1973.
________ La dinámica de la transferencia
________ Consejos al médico en el tratamiento psicoanalítico
________ Observaciones sobre el “amor de transferencia”.

LACAN, J. Do “Trieb” de Freud e do desejo do psicanalista, in Escritos, R. de Janeiro, J. Zahar Ed., 1998.
 _________O seminário VIII, A Transferência, R. de Janeiro, J. Zahar Ed.1992.
 _________O Seminário XI, os quatro conceitos fundamentais da psicanálise,
R. de Janeiro, J. Zahar Ed., 1973.
 _________O Seminário XVII, o avesso da psicanálise, R. de Janeiro, J. Zahar Ed., 1992.
__________Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da escola, in Opção Lacaniana, Revista brasileira internacional de psicanálise, S. Paulo, ed Eolia, 1996, nº 17.

LECOUER, B. O encontro com o desejo do analista, in Opção Lacaniana, nº 16.
NAVEAU, P. A condição inumana, nº 16.
SAURET, MARIE-JEAN A ironia do analista, in Opção Lacaniana, nº 16.
SAGNA LA, P. Um desejo não sem limites, in Opção Lacaniana, nº 16.
STRAUSS, M. O desejo advertido, in Opção Lacaniana, nº 16.

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